segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Mors.

“Nossa, eu só queria morrer”

Foi com essa frase corriqueira sobre algum assunto deveras adulto que congelei uma conversa em uma mesa de bar com amigas que não via há séculos. Estranhei como o clima ficou tão pesado de uma hora para a outra com uma simples frase proferida em meio a pessoas que eu considerava já conscientes do meu modo de pensar e agir. Mais estranho ainda foi perceber que talvez eu realmente fosse o único individuo naquela conversa que considerava realmente a morte uma opção. Deixei o assunto na mesa transformar-se em um grande esforço para me apresentar coisas boas da vida, inclusive tentaram me convencer quão ingrata e sem fé sou (!). Sobrou até para a recente falecida vó de alguma delas o encargo de dissuadir-me de ideia tão estapafúrdia. Deus a tenha.

Eu estava realmente sozinha nessa? Ninguém tem pensamentos constantes de que se a vida findasse neste instante, tudo seria muito mais fácil? Claro que não fazemos a menor ideia de se o que nos espera é bom ou ruim, mas o fato de pouquíssimos ou nenhum (dependendo da sua fé – ou da falta dela) terem voltado de lá é evidência suficiente que pior que aqui o outro lado não deve ser.

Na maioria das vezes é só o cansaço, entende? A apatia e indolência tão inerentes à vida adulta. Claro, talvez, se eu fosse abastada eu estaria me distraindo de uma forma muito mais apropriada aos meus desejos. Mas já somos grandinhos o suficiente para entender que vontade de viver não é diretamente proporcional ao seu estado financeiro, apesar de facilitar que nos entretenhamos e esqueçamos os dissabores de uma vida.

Talvez eu flerte demais com a morte. Talvez por saber que ela é o ápice de toda vivência, o apogeu em que todos vamos com toda certeza um dia chegar, eu tenha uma curiosidade enorme para já saber como ela se apresentaria para mim. Poderia ser como em um abrir e fechar de olhos e – bum – estamos à direita do Pai, vendo anjos voando por todos os lados. Ou eu poderia simplesmente fechar meus olhos e acordar chorando, fruto de um parto bem-sucedido. Talvez eu me torne poeira cósmica, viajando no tempo e espaço por toda a eternidade. Quem sabe a própria Dona Morte não me pegue pela sua mão e me leve pro Inferno, onde eu ouviria Tiago Iorc fazendo cover com Roberto Carlos em um lugar onde todo dia é Natal?

Ou talvez tudo apenas acabe. Finito.

Despertei do meu devaneio com um enorme copo de chopp batendo na mesa bem na minha frente. Elas ainda estavam engalfinhando-se e decidindo se eu estava depressiva, se ainda tomava regularmente meus remédios da bipolaridade ou se só queria chamar a atenção.

“Gente, eu tava brincando, poxa.”

Risadas nervosas seguidas do tilintar de nossos copos ecoaram pelo pequeno bar. Mas o alívio de não ter que resgatar alguém de um possível pensamento suicida ecoou ainda mais forte. 


 

sábado, 26 de outubro de 2019

Fragmentos


Acho que gostava mais quando eu chorava. As lágrimas desciam pelas minhas bochechas e, com o tempo evaporavam, como se evaporassem junto com elas minhas confusões, minha dor, meus complexos. Hoje eu deveria ter chorado, eu deveria ter desabado minhas frustrações e medos. Mas não encontro mais minhas lágrimas. Meu rio interno secou, mas sem criar vida, sem ter a chance de fazer florescer qualquer flor ou fruto à sua margem. O que crescia dentro de mim era o próprio Estige, carregando corpos falecidos e almas estilhaçadas, fragmentos de mim mesma e do que deixei que fizessem comigo. Por fora me sinto a pessoa mais normal do mundo: um rosto simples, sem beleza ou atrativo, mas não muito ruim de se olhar. Por dentro, sou o próprio monstro que Frankenstein criou, mas dessa vez sem criador a admirar. Meu espelho interno – estilhaçado - me mostra um quebra-cabeças perverso. Minhas esperanças vinham do lado exterior, de um fabuloso mundo que criei junto a alguém. Era meu refúgio, para onde eu escapava nos momentos mais sombrios de mim mesma. Hoje esse mundo desmoronou, levando meu último fio de fé e me fazendo abrir os olhos para toda aquela ilusão. No final sobramos apenas eu e meus estilhaços, que deixo guardados aqui dentro, para não ferir ninguém.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Eu só queria escrever para você, Elisama.


Antes eu tinha pena de mim ‘’pobrezinha, nem a mãe dela a ama, porque alguém amaria?’’. E aí é que está: o que é o amor? Sério. Admiração? Respeito? Sexo? Eu acho que minhas experiências me fizeram reconhecer o que não é o amor. O não-amor tem a cara do egoísmo, tem a rosto do menosprezo, ele te coloca para baixo de todas as formas possíveis. Ele diz coisas que sabe que vão te magoar e degusta isso como se degusta um vinho caro. O não-amor também te faz mudar a forma como você se olha no espelho. Um dia você é apenas você, depois existe uma sombra apontando todos os seus defeitos e dizendo que não vale a pena tentar mudar, porque o não-amor é mais forte que qualquer palavra positiva. O não-amor te faz acreditar que não adianta tentar se apreciar, porque tem nada lá para ser admirado. Ele te coloca em último lugar, no ultimo pensamento do dia, isso quando ele tem tempo de pensar em você. Sim, o não-amor tem sua personificação. E muitas vezes convivemos diariamente com ele, somos amigos dele e até casamos com alguns por aí. É fácil falar sobre amor próprio, mas olha bem dentro de si, existe amor suficiente para você aíNem todo dia vai ter. Se você achou que esse seria um texto de autoajuda, me desculpe não o decepcionar. Me deixe ser clichê, eu gostaria sim de deixar uma mensagem: Ninguém deveria ter o poder de te situar em um lugar ao qual você não pertence. Cada um sabe seus defeitos e seus valores, e ninguém é igual a ninguém. A gente não vai se amar todos os dias, mas também não precisamos viver sempre em guerra dentro de nós. Já temos guerras suficientes para combater todos os dias. Você fez o seu melhor para chegar até aqui com os recursos que tinha. Não jogue esse progresso fora. Liberte-se. Beleza e inteligência são conceitos subjetivos. Não caia nessa. 

domingo, 11 de agosto de 2019

Centelha

De repente, como a queda de um raio que atinge um corpo, criando uma nitescência tão forte, capaz de fazer a noite parecer dia por segundos, aquela lembrança me veio e atingiu cada célula do meu corpo: um ano. 
Na época havia chuva em mim. Por fora e por dentro. Eu estava perdida - literalmente. O salgado quente de minhas lágrimas se confundia com o doce daqueles chuvisco finos e gelados. Não sabia onde estava, nem como chegar, mas já estava acostumada a essa sensação desde que você havia partido. Tropecei, mas mantive firme a perna hesitante. Um longo caminho me aguardava. E era ladeira abaixo. Eu não podia mais contar com sua ajuda. Eu não tinha mais você. E estava ali para matar o único resquício de vida referente ao que restou de nós. Éramos o próprio monstro de Frankenstein, cheios de Sentimentos confusos, remendados, costurados com suor e fios de sangue, que tiramos do que nos restou de uma breve vida conjugal. Era minha sentença e minha libertação. As mãos trêmulas não podiam acreditar no que os olhos liam. Como um acordo frio e sem vantagens, a caneta verteu suas cansadas gotas de tinta. Letras e mais letras sem sentido ainda dançavam ali na minha frente, lembrando toda nossa incapacidade de manter o que construímos. Tudo que nos resta agora é apenas um pedaço de papel, esperando pelo desgaste do tempo. São lembranças, que vão ficando cada vez mais turvas e perdidas na memória do que um dia foi um grande amor. 

sábado, 31 de março de 2018

Soul

Escrevo hoje para acalmar minha alma partida. Pra tentar colocar de vez na cabeça que tudo o que acontece tem um propósito. Mas tenho andado cética quanto ao Destino. Logo eu que, que acreditava piamente na Fortuna e sua sabedoria eterna. Hoje sou apenas dúvidas. O que falar? Como agir? Como lidar com as consequências e com a enxurrada de sentimentos que borbulham dentro do meu peito?
Sei que agi certo em sair de cima desse muro, mas a queda lá de cima ainda dói em meus frágeis ossos. Do lado de cá, apesar da dor, tá tudo bem. Ainda tem muita coisa a ser arrumada, conversada e concordada, mas estamos indo bem.
É chato esse muro entre nós. Ouço sua voz e seus passos desse lado daí, mas já não reconheço mais o que é voce, o que pode ser os outros. Seu cheiro ainda dorme em mim, mas sabemos que memórias passam, minha raposa.
Sei que tudo vai passar, eventualmente. Estaremos então mais maduros para lidar com tudo. Mas por enquanto, guarde uma canção em sua garganta rouca. Guarde um acorde em seus dedos já tão destreinados. Pense em mim quando ouvir aquela canção boba sobre o medo. Guarde um sonho bom para nós dois.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Náufrago

Antes de tudo éramos certeza. Hoje somos sombra de dúvida, desconhecidos como náufragos bebendo água do mar e tendo ilusões que juram ser verdadeiras. Éramos imagem real, agora, meros reflexos em um espelho trincado por algum objeto atirado. Caleidoscópios de nós mesmos, destituídos de sentido e razão.
Onde antes pensava plantar amor, hoje colho mentiras, dia após dia, em uma cadência melancólica e fúnebre. Seus olhos cor de mar me riem, mas é meu coração que insiste em chorar. Chora pela possibilidade que insistimos em desperdiçar, pelos outros com quem tropeçamos pelo caminho, que desviam nossa atenção e por tantas outras antes de mim que talvez façam bem mais sentido em seu mundo inventado.
E eu, em cima dessa pedra fico, contemplando sua embarcação, que já segue ao longe. Espremendo meus olhos eu até consigo enxergar, nublado e já quase irreconhecível, seu rosto.
Você está sorrindo?

sábado, 30 de dezembro de 2017

Raposa.

Não posso deixar de perceber que olho para você como Narciso contemplava seu próprio reflexo e amava aquele ser tão intrinsecamente seu. Mas seus olhos não são os meus. Este espelho na água reproduz algo que não sou eu. Um híbrido hermafrodita, lutando para se encontrar entre gêneros e desejos. Um animal acorrentado em si mesmo e às barras de uma jaula. Você esteve sempre aí? Não te conhecia até ontem, quando saturno em domicílio emanava seus primeiros raios astrológicos, deixando para trás o flecheiro, que talvez elucidasse qualquer sentimento confuso que tenho hoje. Mas você, puro Sol, não acreditaria em tamanha bobagem. É a falta de fé em si mesmo, a confusão anímica, a tristeza e o torpor diante deste reflexo que me faz duvidar muitas vezes que aquela imagem seja eu. 
Nunca poderei te tocar, sem que a face das águas se desmanchem criando um enorme borrão cristalino. Não te abraçarei como faço em meus sonhos, pois, diferente do jovem Narciso, sei dos riscos de se jogar em meio ao vazio pelágico. Mas esse reflexo é tão meu que a necessidade de tanger se torna desnecessária e muitas vezes sem sentido. Nós não fazemos sentido. Não há qualquer razão plausível que explique nosso encontro ou esse elo imediato. Gosto de nos imaginar pedaços de uma mesma alma, quebrada no infinito muito antes de se fazer matéria. E que nos encontramos, mas nunca seremos por inteiro, já que somos feitos de cosmos, matéria eterna e pura arte. Somos reflexo. Somos o inacabado, esperando que um final chegue para nós, eventualmente. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Estrangeiro


Não sei dizer ao certo o que nele realmente chamou minha atenção. Seria o seu rosto tão ordinário quanto centenas outros que eu já tenha mirado? Ou seria seu tom de pele pálido e sem sal, combinando perfeitamente com seus olhos castanho vulgar? E o sorriso quase falso, pretensioso e insolente que destila a todos por onde passa, seria essa minha fonte de fascinação? Talvez a resposta esteja no seu jeito altivo, de menino criado em ilusões de grandeza, de estrangeiro em terras não tão distantes, mas longe o suficiente para se fazer único em meio a muitos. Gosto como se ilude sem nem perceber que apenas você e alguns poucos acreditam no conceito idealizado para e sobre você. O que me deslumbra é me fazer pensar que exista frivolidade em um nível tão magnânimo. É o atrevimento, a audácia e ao mesmo tempo, a ingenuidade. É como me faz sentir: como um povo prestes a ser colonizado, que aceita qualquer quinquilharia em troca de seus bens preciosos. É a admiração ao estrangeiro, ao modo como fala, como age e como se comporta. E, assim, minhas terras vão sendo conquistadas pouco a pouco, enquanto me divirto em seus jogos, em sua utopia megalomaníaca que cega meu intelecto quase que por completo. 

(...)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Forgotten

Pra ser bem sincera, nem lembro mais seu nome. Até seu rosto e feições hoje me são tão estranhos quanto eram nos segundos que antecederam nosso encontro. Hoje, revirando minhas gavetas mentais, me deparei com seu cheiro, que a essa altura já nem sei mais se era mesmo seu ou da areia em que nos sentamos a observar o mar. Te encontrar aqui dentro me causou um feliz vazio. Uma certeza de que nos conhecemos apenas para isso: para sentirmos uma ponta mágica do que são feitos os contos de fadas, mas com a sensação agridoce que tem os dramas em que o mocinho morre no final. Era pra ser aquele único nascer do Sol em seus braços. Era pra ser a cumplicidade instantânea que brotou entre nós. As risadas e as canções que cantamos um para o outro. Eram pra ser. O sentimento. O cheiro. O Sol. Hoje nem lembro mais o seu nome. Fomos um ponto de esperança no vazio iminente chamado esquecimento.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

271.

Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...

A repressão do amor ilumina os fenômenos dele com muito mais clareza que a mesma experiência. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa mas confunde. Possuir é ser possuído, e portanto perder-se. Só a ideia atinge, sem se estragar, o conhecimento da verdade.


Fernando Pessoa in Livro do Desassossego

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Escrever/ler nem sempre é compreender.

Aprendi com Marguerite Duras que a escrita é uma coisa estranha. É a dor dos que vieram antes de nós, é a dor humana, essa que conhecemos de ouvir falar nas histórias e na História, essa mesma que carregamos quase como herança genética. É a voz do animal que reconhecemos na noite, que se confunde com os nossos próprios uivos. Ainda sobre animais, Deleuze nos mostra a ideia de território e mais ainda a necessidade de se ultrapassar as barreiras dessa área. É importante criar uma zona de conforto, afinal, isso acontece naturalmente entre nós escritores, mas a mágica acontece exatamente quando nos dispomos a ir além, a traspassar esse território. “E o território só vale em relação a um movimento através do qual se sai dele” diz Deleuze em Abecedário. Isso já nos mostra uma característica do eixo pensamento-selvagem. Não é só escrever sobre animalidades, mas pensar e criar como os animais. É sentir com o corpo, com os sentidos. É deixar que o nosso instinto tome conta, é deixar esse ser animal transbordar na página em branco e sujá-la com seus fluidos animalescos. 
E compreender também é arbitrário. Falo daquela compreensão que sempre tentamos ter quando lemos ou escrevemos algo, aquela de que tudo precisa ter um sentido expresso seja implícita ou explicitamente. Escrever/ler nem sempre é compreender. Muitas vezes a grande potência de uma obra está justamente na incompreensão dela. É como o ato de falar a língua dos anjos para alguns cristãos. Eles entendem que só conseguem falá-la quando desligam o pensamento e deixam que o espírito santo tome conta do centro da fala do indivíduo e assim, fale através deles. Não compreendem que estão falando, mas sentem a força daquelas palavras estranhas em seus poros, em suas almas, na pontas dos seus dedos. É como Vico expressa ainda em Ciência Nova: “Porque assim como metafisica raciocinada ensina ‘homo intelligendo fit omnia’*, assim esta metafísica demonstra que ‘homo NON intelligendo fit omnia’; e talvez esta seja mais verdadeira do que aquela, pois o homem, ao entender, abre sua mente e compreende tais coisas, mas ao não entender ele de si faz essas coisas e nelas se transforma. ”

Incorporar o animal é incorporar o que nos é estranho dentro de nós.

Pensamos no outro como algo alheio a nossas vidas, mas o outro é tão intrinsecamente eu. É através de uma resolução antropofágica que enriquecemos não somente a escrita, mas a nós mesmos. O choque com outra cultura ou outras formas de pensar e agir faz com que isso se torne automaticamente parte de mim, faz com que algo mude dentro de nós e o que me afeta se torna meu. Segundo Osvald de Andrade: “Só me interessa o que não é meu”. E é assim que crescemos como escritores, como leitores e como seres humanos: absorvendo o estranho, criando ligações animalescas com nosso interior e com o interior alheio, compreendendo e não compreendendo essa força universal que une todos os seres, nos tornando mais animais e humanizando o que é fera.


* "Um homem de entendimento é tudo"

domingo, 4 de dezembro de 2016

Não quero muito, apenas tudo. Tudo que seja etéreo, todo espiritual e incorpóreo que possa me oferecer. Não quero mãos dadas, quero almas dançantes em meio a um infinito vazio de si mesmo e de nós. Me importa muito mais o querer do que o ser, me importo com o desejo, a veemência, o assombro. Não, meu amor, não quero sua carne. Que ela seja dada aos animais, que creem apenas como Tomé e amam com o toque pesado dos sentidos físicos! Deixe-os com a frívola sensação de estarem vivos, com a esperança de que o toque suprima seus vazios materiais. A mim, meu amado, não importa a fugaz sensação do abraço ou o breve gozo de um beijo. Não, mas deixa-me com os lábios que argumentam a metafísica das coisas, com as mãos que criaram arte e poesia, com os olhos que podem me despir em segundos e o prazer que apenas o transcendente pode oferecer. Dê a ela o que a existência precisa para fazer-se tanger, mas a mim, meu bem, dá-me tudo e dá-me o nada. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

Do sabão ao pó

- Puta que pariu! Puta que PARIU! – O barulho do carro ficou mais alto e explodiu em um estrondo.
- Mai que diabéisso? Olha essa boca, Fabiano! – Dona Zefa, agarrada às sacolas de compras olhava para o rapaz com os olhos arregalados.
- Ah, mãe, mas que merda! Saporra vai inventar de quebrar justo agora!
Na avenida, carros e carros passavam deixando seus ZUNS e rajadas de ventos poluídos no ar.
- Mai meu filho, precisa falar nome desse jeito? Que coisa mai feia!
- A senhora não ta entendendo a gravidade da coisa.
- Ué, o carro parou. Dê seu jeito e ligue de novo.
“Ah, claro. Fácil assim.” Há semanas que o motor estava capengando e sabia que deveria ter passado no seu Severo para verificar. “Aquele velho careiro do caralho”. A  economia ia era custar caro.
- Logo hoje que eu tô na escala pra dobrar lá na firma!
- E essa joça deu o prego mêmo?
- É, parece que sim.
Ao abrir o capô, uma fumaça densa e quente saiu de dentro, queimando de leve o rosto de Fabiano.
- Ai cacete! Filho da puta!
- Que danação é essa, Fabiano? - Dona Zefa só esticava o pequeno pescoço pra tentar ver, mas não desgrudava das sacolas, como se alguém a qualquer momento fosse roubar seus preciosos pertences.
- Nada, mãe! Fica aí que eu vou resolver isso!
- Ah, claro... Vai ver se esse maluvido vai mêmo resolver essa paia...
- Que foi?
- Nada, meu filho. Continue sua procissão aí!
- Velha irritante...
- Que foi, Fabiano? Falou comigo?
- O buraco no motor ta gigante!
Desde que Fabiano largou sua ex e voltou pra casa de sua mãe que as coisas andavam assim, estranhas entre eles. Sua mãe parecia estar escondendo algo, e sempre pedindo para leva-la à lugares estranhos, e quando levava, pedia para esperar na esquina ou adjacências e depois voltava agarrada às sacolas de suas encomendas. Trocavam farpas, como em toda relação normal de mãe-filho, mas sentia que a hostilidade da senhora com relação ao seu novo hóspede estava mais forte que o normal. Não gostava de se meter na vida da mãe, mas achava estranho demais o movimento que acontecia na casa dela. Sempre tinha alguma figura chamando na porta e ela sempre saia com umas pequenas quentinhas enroladas em um plástico pra entregar. Nunca pensei que comida daria dinheiro assim, mas dava pra perceber que dona Zefa estava prosperando em seus negócios. Arrumou a casa toda, trocou piso, fez parede e até um terraço onde acontecia mensalmente churrasco para os amigos. Sempre que questionava a senhora sobre a procedência do dinheiro, a velha ficava invasiva e sempre desconversava.
Colocou o triangulo para sinalizar e ligou para o reboque. Chegariam em 40 minutos.
- Agora é só esperar.
- E vamo esperar aqui nessa quentura? Capaz de vir um safado qualquer e levar minhas coisa.
- Mãe, a gente tá em uma via expressa. Só tem carro passando, acha mesmo que alguém vai parar só pra roubar a gente? E se roubar também, vai levar o quê? Tenho 5 reais na carteira e o carro não tem nem radio pra salvar.
-  Ai, Fabiano... Minhas encumenda!
- E o que que tem demais aí, afinal? – Falou já esticando o braço para abrir a sacola.
- Ta ca peste, mininu? Arreda!
- Mãe, o que é isso? – Na tentativa de ver o que era, um pedaço denso de alguma coisa, em formato quadrado e enrolado em uma fita marrom caiu no chão do carro.
- Arre, Fabiano! Me deixe!
- Isso é droga?
- Que droga o quê, abestado! É sabão de louça!
- Sabão de louça, mãe? Pra cima de mim?
- Ôxe! Mai é sim! Eu compro de Inês e de Rita toda semana pra revender la no bairro. Elas vendem faz tempo também. O povo parece que gosta da coisa mêmo. – a velha parecia sincera.
- A senhora realmente acha que isso é sabão de louça? Já abriu um pra experimentar?
- Assim, abrir eu não abri não. Mai seu Rube da venda diz que não porfissional usar suas próprias mercadorias. Mas ele diz que é bom, compra quase que de 2 em 2 dia...
- Não, mãe! Você ta traficando droga sem nem saber?
- Que droga o quê, mininu! Pare de frescagi!
- Então me deixa abrir um pra ver!
- Mai num...
Sem esperar a resposta, o rapaz abriu um pacote marrom daqueles e a fumaça de um pó branco se espalhou pelo carro, os fazendo tossir bastante.
- Mãe, você ta louca?
A velha começou a chorar. Há tempos Fabiano não a via frágil daquele jeito. A mulher carrancuda cangaceira se desfez junto com a fumaça branca que estava ali.
- Nem Santo Antonho com gancho me salva, meu filho! To fazendo essa desgraceira com a vida dos ôto e tava ganhando tanto diêro que nem quis saber a procidência desse diacho! Eu mereço é cadeia mêmo, to estragano as famía!
Fabiano sentiu um dó profundo pela velha.
- Mas você não sabia o que estava fazendo...
- Mai devia saber! Vou junir essa coisa daqui da ponte é agora!
- Calma, mãe! Deixa eu olhar isso de novo. – Enfiou o dedo no malote e cheirou. Depois deu uma lambida de leve e riu para ela.
- Ta me frescando, Fabiano?
- Não, só to achando engraçado porque isso aqui ta parecendo Sapolium. É sabão de louça mesmo.
- Crendeuspai, sério?
- Uhum.
- Graças a nossa senhora! Num vou mai pro inferno!
- Pois é. – o rapaz continuou lambendo o pó. – Mas faz só um favor pra mim? Liga pra ambulância que meu coração ta disparado.
- Ai, Jesus! O que tu tem, Fabiano?

- Nada, acho que é só emoção mesmo.


Conto publicado no Livro 164-Circular, organizado pela Claudia Chigres para a editora Texto e Território (tô chique, bem!)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Psicose


“...em síntese, Medusa simboliza a imagem 

deformada, que petrifica pelo horror, em lugar de 

esclarecer com equidade. ”

(Junito Brandão)



Em dias como este não dá para dormir. Dias em que sanidade é posta em cheque  e a psicose parece tomar conta não só da minha mente, mas do meu corpo e da minha  alma. Parece piti de madame, podem chamar como quiserem, mas é tão real como a certeza de que o Sol vai nascer daqui a umas horas.  Serpente. Tenho sonhado com ela todas as noites, quando consigo dormir. Ainda sinto sua pele escamosa e gélida dançando, começando pelos pés, passeando então por recônditos do meu corpo de uma forma como nunca algo ou alguém explorou. E por final se aninha em meu colo, como um rebento recém concebido almeja pelo carinho maternal. Nessa hora, quando me entrego àquele gáudio momento, a serpente se transforma, levanta sua cabeça e mostra suas presas, revelando sua verdadeira intenção. Grito por socorro, sempre em vão. Aqui, nesta varanda, ainda não sei se estou completamente a salvo. 

ÉTUDOCOISADASUACABEÇASUALOUCA. Enquanto estou aqui, fitando o horizonte escuro iluminado apenas por pequenos pontinhos de luz aqui e acolá, minha mente parece funcionar a todo vapor. Não há pensamento que não passe por minha cabeça. Os piores do mundo.. SEJOGA. A luta psíquica travada com esse órgão tão confuso e inexplorado se intensifica quando as pequenas luzes enfim começam a se apagar. Uma por uma. Uma por uma. Uma. Me apego no pensamento que aquela última luz está ali por mim. PORVOCE?. Um lampejo de esperança acende em meu corpo, passando por minhas veias e bombeando por toda minha estrutura. ÉSÓAPORRADEUMALUZINHA. Devem ter esquecido acesa. Ou devem estar se despedindo para ir dormir. Deve haver uma mãe, deve haver um pai. E um filho, claro. Um filho. Ou uma filha, quem sabe. Podem estar contando uma história para a criança. Ela pode ter tido pesadelos, quem sabe com uma serpente. E ali a senhora Mãe está acariciando a cabeça dela enquanto o senhor Pai está procurando o suposto monstro embaixo da cama. Quando tudo parece enfim calmo, mamãe e papai sentam na cama, e dizem “papai e mamãe te... ALUZAPAGOUCALAESSABOCA. Não devia ser nada. A cidade dorme, o silêncio, e a gritaria em minha mente, me ensurdecendo.. Quando me transformei nisso? Lembro-me dos dias sem fim, rodeada de amigos e exalando uma beleza pueril de deixar qualquer babaca de queixo caído. ESSEERATEUPROBLEMA. Qualquer BABACA.

Ele não era babaca. Só era casado. Arrastei anos e dois filhos nessa novela mexicana. ELENÃOTEAMAVA. Eu o amava mais do que a mim mesma. Eu achava que o amor dele era o máximo que eu poderia ter. VOCENAOMERECIANEMISSO. Eu merecia mais. Mas a gente se contenta com migalhas. Um dia a louca chegou na minha casa, com aquele vidrinho na mão. Já sabia de tudo. OBABACATINHACONTADOCLARO. Foi quando tudo ficou tenso e escuro. Acordei com o rosto queimando como brasa, em um lugar frio e branco. Partes dos meus seios estavam em carne viva e eu só via meu reflexo no rosto de quem me visitava. A dor na feição deles doía em minha espinha dorsal, e a certeza de que nada seria como antes era latente. AQUELAFILHADAPUTA. Eu mereci. Foi pagamento dos meus pecados. Desde então, se me olhei no espelho duas vezes foi muito. Na primeira era como olhar a própria alma do tinhoso. Não conseguia acreditar que tinha me 
transformado naquilo. Sim, porque agora eu não era mais aquela de outrora, a vívida, a bela, ADESTRUIDORADECASAMENTOS. Olhar-me no espelho significava encarar a finitude, a feiura do fugaz, o irreversível estado de fim. E ele, OBABACA, sumiu sem deixar vestígios. E eu, que nunca aprendi com minha mãe a ser mãe, tive que ser mãe e pai. VOCELARGOUSEUSFILHOSCOMSUAIRMÃSUAESCROTA. Na verdade, eu deixei meus filhos com minha irmã e me mudei para longe, a fim de refazer a vida. E cá agora estou. Trabalho em um estoque de mercearia FEIADEMAISPRATRABALHARNOCAIXA, sem amigos ou chegados. Um ou outro tenta fazer amizade, mas cada vez que o olhar de pena e terror deles encontra as cicatrizes em meu rosto, eu fujo. ELESAGRADECEMAFUGA. 

O Sol começa a despontar no horizonte, sinal de que a vida continua. INFELIZMENTE. Acendo um cigarro e daqui, do alto da minha “torre”, espero que essa existência se consuma e meu tormento acabe de vez. De relance me olho refletida no vidro da porta. E petrifico.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Tanglomanglo

Quando Jasão conquistou o velocino de ouro e a nau Argos
                                              velejava com Medéia rumo à Grécia, o sonho da princesa parecia
realidade. (...) Quem ainda se lembrava do monstro? Contudo,
para o herói, o monstro jamais é um só. Por isso se deixa
esquecer; todo monstro é um prelúdio ao monstro sucessivo. E
mais fácil que a princesa seja esquecida. Os monstros possuem
uma identidade difusa, que se encontra e se repete em cada
fragmento do monstro, ao passo que cada mulher é um perfil e, a
todo momento, um novo perfil pode encobrir os outros. Assim, as
histórias entre os heróis e as princesas tendem a terminar mal
(CALASSO, 1990, p. 225).





            A faca, o porco, velas e sangue. “Se arrepender, vai se arrepender”. Vela preta, vela vermelha. “Ah, se vai”. Cuspida. Baforada. Risada. Risadas. Ele está andando, como se não percebesse todo mal que o açoita furtivamente. “Alguma coisa tá errada”. Seu corpo adormece. Moedas, cachaça. Cuspida. Baforada. Anda como automático. Seu olho adormece. Tem lembrança da infância. Não aquelas que costuma ter, mas lembranças que nem sabia que existiam brotam em sua mente como enxurrada de uma represa partida. Gritos. Brigas. Um soco. Ele está ali, olhando. Não faz nada. “Por que você não faz nada?”. Ele saiu de casa de novo. “SEU MERDA!”. Aquele olhar o encontra. Ela o odeia. Ela te odeia. “Mas esse menino parece tanto com o pai”. Cuspida. Baforada. A faca na garganta. O porco. “Sai daqui, menino!” Sua cabeça adormece. Tudo fica escuro. Vela preta, vela vermelha. A chama parece recordá-lo do caminho até aquela casa a tanto tempo esquecida. Não queria entrar ali. Não queria estar ali de novo. Mas está. Moedas, cachaça. Cuspida. Baforada. Uma faca. Ele ouve a risada dela. Ela deveria ter cuidado dele. Ela deveria ter dado mais atenção. Não sabia ser materna. Não sabia ser. Ele saiu de casa de novo. Acompanhado. Dessa vez parece que não volta mais. As vozes, que começaram em um sussurro, estão cada vez mais altas. Tão altas que ele não consegue nem ouvir as pessoas falando ao seu redor. Elas parecem estar falando de você. Elas estão falando de mim. Elas não fazem ideia do que você vai fazer. Elas não têm ideia do que eu vou fazer. Abriu o portão enferrujado, sem perceber o rangido. Viu Santo Antônio no azulejo perto do telhado. Parou. Cuspida. Baforada. Tremores. Cachaça. Cuspida. Gargalhada. Seguiu seu caminho automaticamente. A porta de madeira, que parecia tão pesada em outra época está entreaberta. Passa pela sala e chega à cozinha. Na gaveta do armário lhe espera a faca de churrasco que tantas vezes viu sua avó afiar. De relance olha para a varanda. Ele está lá, reclinado na rede. Vê apenas parte do braço e seus pelos grossos protuberantes. A adrenalina toma conta do seu corpo e, como uma dança cerimonial, ele titubeia, vacila, hesita, oscila. Em questões de segundos, sua mão se projeta ao alto e com um golpe forte e certeiro, atinge algo. Cachaça, cuspida. Baforada. Muitas gargalhadas. Um choro. Choro de criança irrompe pela casa. Ela estava naquele colo. Ainda sobre o efeito tórpido, passa a faca pela garganta dele também, espirrando em seu rosto e corpo, criando rapidamente uma vasta piscina rúbida no chão. Os dois corpos caem abrupta e bruscamente no chão. Gargalhada. Olha o que você fez! Em outro lugar, o pequeno corpo suíno ainda está gritando enquanto aquela figura ali, de pé, contempla seu massacre. O que foi que você fez? Lágrima. Gargalhada. O que eu fiz? É quando as últimas gotas porcinas estão rolando que ele dá cabo de vez daquela cena. Um último golpe. Bem no estômago. O joelho também machuca com o peso da gravidade sobre seu corpo. Agora são três. Silêncio. Não há remorsos. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tenuidade


Luana era linda. Apesar de toda sua história de vida e tudo o que a fez ter uma autoestima baixa, Luana era linda. Luana não era popular. Dotada de uma inteligencia sarcástica  daquelas que a gente aprende pra tentar se destacar no mundo, mas que acaba mesmo é nos fazendo estar à parte dele. Luana tinha uma vida comum: trabalhava, estudava, sofria, se alegrava. Como você, como eu. Tentava viver em harmonia com tudo e todos. Tentava a vida e aceitava tudo o que ela lhe oferecia de bom grado. Uma pessoa comum, mas Luana era linda - só ela não percebia. Onde chegava tentava se entrosar. Tentava. Daquele jeito diferente dela. Mas o mundo é assim, não tem tempo de perceber e aceitar diferenças. E Luana era como todo mundo - pra ela também foi difícil se perceber e se aceitar. 
Semanas se passaram até que sua falta fosse notada. Foi encontrada pelo porteiro de seu prédio que, desconfiado por não tê-la visto procurando suas correspondências (sua caixa de correio nunca esteve cheia, mas uma carta ali há dias o intrigou) foi bater em sua porta. Precisou usar a chave reserva. Ele encontrou o corpo já roxo pendendo no guarda-roupas, pendurado apenas por um cinto enrolado no pescoço. A barra da calça gasta denunciava as unhas de seu gato, deitado logo abaixo do decrépito cadáver.
Luana era linda. Não o suficiente. Era inteligente, mas não o bastante. Até era legal, mas apenas razoavelmente. Investigações até foram feitas, mas logo se decretou suicídio e caso encerado. Foi enterrada pelo que restara de sua família - uma tia e um primo. A carta que estava em sua correspondência foi enterrada junto. Luana era tão desinteressante ao mundo que nem mesmo sua tia teve curiosidade de a ler. 
Hoje a vida segue. Luana até que era bonitinha, mas ninguém mais toca no assunto.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Passos


Pronto. É a hora da verdade. Se eu digo sim, vou estar presa a uma só pessoa pro resto da minha vida. Cara, a mesma pessoa pro resto da vida! E se eu disser não? Porra, já se passaram seis anos. SEIS anos. Tenho nem desculpa pra dizer não. Tá, vou dizer sim, vamos nos abraçar, ele vai chorar (como sempre) e tudo vai ficar bem. Mano, olha pra cara dele! Isso é bem mais que um pedido de casamento, é um ato de desespero! Calma, relaxa. Pensa nas coisas boas. Pensa em como ele adora tudo o que você fala. Em como ele te olha como se fosse a pessoa mais inteligente do mundo. Meu Deus, o que será que ele tem na cabeça? Eu? Eu pesquiso poemas no google pra recitar! Acho que nem tenho um livro decente de algum poeta renomado. E ele acha que eu sou a pessoa mais poética que ele conhece! Não, não. Vai dar certo sim. Será? Ele tem aquela coisa de gesticular como um louco pra contar qualquer coisa. Nossa, como isso me irrita! Se eu não odiasse tanto passar vergonha talvez eu estivesse nem aí pra isso, mas ele precisa mesmo ser tão escandaloso? Mas olha a grossura desse anel... Minhas amigas encalhadas ficariam com a maior inveja. Ah, sim... Se eu aceitar a primeira foto pro instagram vai ser desse anel. Porque tanta dúvida? (eu sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde) Tá, mas nunca é algo para o qual se está realmente preparada. Ok. Vamos lá. Essa cena tá ficando embaraçosa e já tá enchendo de curiosos pra olhar. Mas porra, pedir alguém em casamento em plena praça de alimentação do shopping? É merecer ficar aí esperando, só pra passar vergonha mesmo. Tá bom, tá bom... eu o amo. Definitivamente o amo. Vamos logo terminar com isso.

- Ai, meu Deus! Claro que eu aceito!!


[Trabalho apresentado à matéria Oficina de texto narrativo sobre a proposta de Fluxo de Consciência]

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Da ironia dos vícios.

Jorge só saía de casa com seu isqueiro no bolso. Estava sempre às ordens quando alguém precisava de um "foguinho" para o cigarro. Era como um amuleto da sorte, que o lembrava de uma época em que, como  dizia, "curtia uma chupeta do diabo". E completava sempre: "mas Jesus me libertou a mais de 20 anos, amém!". Dia desses Jorge adoeceu e foi parar no hospital. E de lá não voltou mais. Causa do óbito: enfisema pulmonar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Herói boiadeiro


Conhecido por suas milhares de conquistas nos campos de batalha, nosso herói conquistou fama, dinheiro, mulheres e até mesmo homens em toda história de sua vida. Era conhecido como “Deus cabeludo”, por conta de suas madeixas, que se tornaram um símbolo de beleza e poder. Crianças em toda sua era fugiam do aço afiado das tesouras de suas criadas, para poderem - pelo menos em aparência - ser como seu herói. Mas seu tempo não fora outrora, em uma época mitológica muito distante não. Seu tempo foi logo ali, perto o suficiente para eu lembrar de tê-lo visto em suas lutas constantes com bois na arena perto de um sítio em que eu vivia com minha família. Sim, seu campo de batalha era a arena dos boiadeiros, onde dava seu show todo final de semana. Seu sonho era ser reconhecido em todo Brasil. Filho de Oxóssi e sabido do Catimbó, trazia em seu sangue o quente do sertão, e o cheiro de carne queimada pelo sol das grandes caminhadas que fazia, sempre tocando seu berrante para guiar o seu gado. Como quase todo herói sertanejo, teve sua infância sofrida, marcada pela fome e pela morte. Seu pai, uma galalau dado a jogos e mulheres, perdeu todo dinheiro da família e a vida em uma arenga de bar. Sua mãe e irmã eram tudo que nosso herói tinha em vida e era por elas que ele lutava. E como lutava! Quando entrava na arena, era como se ele se transformasse no próprio Caboclo Boiadeiro, dançando com uma coreografia intricada de passos rápidos e ágeis, que o fazia parecer um dançarino mímico, lidando bravamente com os bois. E assim sua fama só crescia em todo sertão.
Mas como dizia minha vó, “a fruta não cai longe da árvore”, e com o nosso herói boiadeiro não deu outra: nasceu com gosto pra bebida forte e um coração fraco para os assuntos do amor. Se desmantelou por uma cabrocha que já tinha dono e foi nela que seu coração se perdeu. Mas por conta do amor não correspondido da Pequena, o herói danou-se a beber e quase toda noite era encontrado pela estrada, caminho de sua fazenda, com o andar sonolento e olhar pesado – coisa de quem ama do jeito errado. E em uma dessas noites de tristeza alcoólica, o herói cambaleante foi até a fazenda da Tal que lhe roubara a sanidade, tomar satisfação pela ilusão que ele mesmo criara. Confuso e atordoado, se viu entrando em um pasto, onde deu de cara com o Touro chamado Pesadelo, conhecido por sua impiedade e força. Nosso herói então, se vê frente a frente com seu destino. Bêbado e à beira da morte, ele dá um grito de desespero, chamando por seu senhor Caboclo Boiadeiro, que lhe acudisse. Sob o som de um trovão, a entidade apareceu montada em um cavalo, vestido de cangaceiro e sorrindo, uma risada escarnecedora. O boi cai duro no chão e nosso herói, agonizante, olha para o espírito e não sabendo se pela bebida ou pela situação quase morte, vê o rosto de seu pai, sorrindo e zombado dele.
Não se teve mais notícias do Herói boiadeiro depois do ocorrido no sítio de Pequena, nem sobre o paradeiro de sua irmã e mãe. Há quem diga que foi pra cidade grande, tentar a vida junto com elas. Mas o grande fuxico foi que o Herói boiadeiro depois que matou o Touro Pesadelo à unha, fora chamado pelo próprio Oxóssi pra combater perigos do outro lado, tornando-se assim, padroeiro dos que combatem touro com as próprias mãos. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Minuto


Pedro acordou com uma leve sensação de vazio. Era como se todo peso de sua vida tivesse sido tirado de seus ombros. Levantou-se, respirou fundo, mas sem sentir muito bem o ar que inspirava. Andou até a janela e, apesar do Sol estar a pino, não sentiu o calor queimar sua pele.  Olhou para o relógio, quase caindo de cima do criado mudo: 12: 52.  O fato de estar atrasado para o trabalho não o incomodou desta vez. Sempre fora um empregado dedicado, até mais do que deveria. Hoje não sentia necessidade de ser. Voltando a olhar pela janela, percebeu algumas pessoas vestidas de preto, entrando e saindo de sua casa, algumas com um semblante calmo, outras com olhar sombrio e perdido. Apesar de sentir algo familiar nelas, não as reconhecia. Desceu as escadas quase como se estivesse flutuando. Passou por um relógio de parede redondo: 12: 52. Um burburinho no ar o deixa curioso. Quem são essas pessoas, e o que fazem na minha casa? Toby, seu cachorro, o olha e começa a uivar. Pedro se abaixa, chamando-o para um afago, mas como resposta recebe uivos mais frenéticos. Percebe então, que não se lembra de como chegara a sua casa. Alguns flashes do dia anterior passam pela sua cabeça. Lembra-se de ter acordado seis em ponto, como todos os dias, se arrumado e ido ao trabalho. No caminho havia parado para tomar o café na birosca onde há meses paquerava uma garçonete. Ah, Luiza. Santa Luiza que já tinha seu pedido decorado: pão na chapa e um pingado. Melhor forma de começar o dia: café com Luiza. Lembrou-se também que Paulo, seu assistente, o chamara pra almoçar fora, pois tinha algo importante para contar a Pedro. Depois de uma pesada conversa sobre o crescimento profissional de seu assistente e a chance de perdê-lo para a contabilidade de outra empresa, lembrou-se de sair do restaurante e atravessar a rua sem olhar pros lados. O relógio em seu pulso – presente de sua mãe – se espatifa pelo chão. 12: 52. Acorda daquelas lembranças e, atordoado, começa a procurar naquelas pessoas alguém conhecido que pudesse lhe dizer o que acontecera a ele. Enquanto caminha, procurando um rosto amigo, nem percebe que não estava mais passando entre as pessoas, mas por elas. Seu susto é enorme quando para e se vê parcialmente dentro de um homem, que se parecia muito com ele, só que mais velho. Sente um grito brotar em sua garganta, mas não há som. Olha para uma senhora que segura com carinho um relógio de pulso quebrado em sua mão. Aproxima-se e fica em paz. Sentindo uma luz penetrar todas as partes do seu corpo, o conduzindo para cima, olha mais uma vez para aquele objeto dourado. O ponteiro dos segundos se mexe preguiçosamente:  12: 53.