Não
quero muito, apenas tudo. Tudo que seja etéreo, todo espiritual e incorpóreo
que possa me oferecer. Não quero mãos dadas, quero almas dançantes em meio a um
infinito vazio de si mesmo e de nós. Me importa muito mais o querer do que o
ser, me importo com o desejo, a veemência, o assombro. Não, meu amor, não quero
sua carne. Que ela seja dada aos animais, que creem apenas como Tomé e amam com
o toque pesado dos sentidos físicos! Deixe-os com a frívola sensação de estarem vivos, com a esperança de que o toque suprima seus vazios materiais. A
mim, meu amado, não importa a fugaz sensação do abraço ou o breve gozo de um
beijo. Não, mas deixa-me com os lábios que argumentam a metafísica das coisas,
com as mãos que criaram arte e poesia, com os olhos que podem me despir em
segundos e o prazer que apenas o transcendente pode oferecer. Dê a ela o que a existência
precisa para fazer-se tanger, mas a mim, meu bem, dá-me tudo e dá-me o nada.
domingo, 4 de dezembro de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
Do sabão ao pó
- Puta que pariu! Puta que PARIU!
– O barulho do carro ficou mais alto e explodiu em um estrondo.
- Mai que diabéisso? Olha essa
boca, Fabiano! – Dona Zefa, agarrada às sacolas de compras olhava para o rapaz
com os olhos arregalados.
- Ah, mãe, mas que merda! Saporra
vai inventar de quebrar justo agora!
Na avenida, carros e carros
passavam deixando seus ZUNS e rajadas de ventos poluídos no ar.
- Mai meu filho, precisa falar
nome desse jeito? Que coisa mai feia!
- A senhora não ta entendendo a
gravidade da coisa.
- Ué, o carro parou. Dê seu jeito
e ligue de novo.
“Ah, claro. Fácil assim.” Há
semanas que o motor estava capengando e sabia que deveria ter passado no seu
Severo para verificar. “Aquele velho careiro do caralho”. A economia ia era custar caro.
- Logo hoje que eu tô na escala
pra dobrar lá na firma!
- E essa joça deu o prego mêmo?
- É, parece que sim.
Ao abrir o capô, uma fumaça densa
e quente saiu de dentro, queimando de leve o rosto de Fabiano.
- Ai cacete! Filho da puta!
- Que danação é essa, Fabiano? -
Dona Zefa só esticava o pequeno pescoço pra tentar ver, mas não desgrudava das sacolas,
como se alguém a qualquer momento fosse roubar seus preciosos pertences.
- Nada, mãe! Fica aí que eu vou
resolver isso!
- Ah, claro... Vai ver se esse
maluvido vai mêmo resolver essa paia...
- Que foi?
- Nada, meu filho. Continue sua
procissão aí!
- Velha irritante...
- Que foi, Fabiano? Falou comigo?
- O buraco no motor ta gigante!
Desde que Fabiano largou sua ex e
voltou pra casa de sua mãe que as coisas andavam assim, estranhas entre eles.
Sua mãe parecia estar escondendo algo, e sempre pedindo para leva-la à lugares
estranhos, e quando levava, pedia para esperar na esquina ou adjacências e depois
voltava agarrada às sacolas de suas encomendas. Trocavam farpas, como em toda
relação normal de mãe-filho, mas sentia que a hostilidade da senhora com
relação ao seu novo hóspede estava mais forte que o normal. Não gostava de se
meter na vida da mãe, mas achava estranho demais o movimento que acontecia na
casa dela. Sempre tinha alguma figura chamando na porta e ela sempre saia com
umas pequenas quentinhas enroladas em um plástico pra entregar. Nunca pensei
que comida daria dinheiro assim, mas dava pra perceber que dona Zefa estava
prosperando em seus negócios. Arrumou a casa toda, trocou piso, fez parede e
até um terraço onde acontecia mensalmente churrasco para os amigos. Sempre que
questionava a senhora sobre a procedência do dinheiro, a velha ficava invasiva
e sempre desconversava.
Colocou o triangulo para
sinalizar e ligou para o reboque. Chegariam em 40 minutos.
- Agora é só esperar.
- E vamo esperar aqui nessa
quentura? Capaz de vir um safado qualquer e levar minhas coisa.
- Mãe, a gente tá em uma via
expressa. Só tem carro passando, acha mesmo que alguém vai parar só pra roubar
a gente? E se roubar também, vai levar o quê? Tenho 5 reais na carteira e o
carro não tem nem radio pra salvar.
-
Ai, Fabiano... Minhas encumenda!
- E o que que tem demais aí,
afinal? – Falou já esticando o braço para abrir a sacola.
- Ta ca peste, mininu? Arreda!
- Mãe, o que é isso? – Na
tentativa de ver o que era, um pedaço denso de alguma coisa, em formato
quadrado e enrolado em uma fita marrom caiu no chão do carro.
- Arre, Fabiano! Me deixe!
- Isso é droga?
- Que droga o quê, abestado! É
sabão de louça!
- Sabão de louça, mãe? Pra cima
de mim?
- Ôxe! Mai é sim! Eu compro de
Inês e de Rita toda semana pra revender la no bairro. Elas vendem faz tempo
também. O povo parece que gosta da coisa mêmo. – a velha parecia sincera.
- A senhora realmente acha que
isso é sabão de louça? Já abriu um pra experimentar?
- Assim, abrir eu não abri não.
Mai seu Rube da venda diz que não porfissional usar suas próprias mercadorias.
Mas ele diz que é bom, compra quase que de 2 em 2 dia...
- Não, mãe! Você ta traficando
droga sem nem saber?
- Que droga o quê, mininu! Pare
de frescagi!
- Então me deixa abrir um pra
ver!
- Mai num...
Sem esperar a resposta, o rapaz
abriu um pacote marrom daqueles e a fumaça de um pó branco se espalhou pelo
carro, os fazendo tossir bastante.
- Mãe, você ta louca?
A velha começou a chorar. Há
tempos Fabiano não a via frágil daquele jeito. A mulher carrancuda cangaceira
se desfez junto com a fumaça branca que estava ali.
- Nem Santo Antonho com gancho me
salva, meu filho! To fazendo essa desgraceira com a vida dos ôto e tava
ganhando tanto diêro que nem quis saber a procidência desse diacho! Eu mereço é
cadeia mêmo, to estragano as famía!
Fabiano sentiu um dó profundo
pela velha.
- Mas você não sabia o que estava
fazendo...
- Mai devia saber! Vou junir essa
coisa daqui da ponte é agora!
- Calma, mãe! Deixa eu olhar isso
de novo. – Enfiou o dedo no malote e cheirou. Depois deu uma lambida de leve e
riu para ela.
- Ta me frescando, Fabiano?
- Não, só to achando engraçado
porque isso aqui ta parecendo Sapolium. É sabão de louça mesmo.
- Crendeuspai, sério?
- Uhum.
- Graças a nossa senhora! Num vou
mai pro inferno!
- Pois é. – o rapaz continuou
lambendo o pó. – Mas faz só um favor pra mim? Liga pra ambulância que meu
coração ta disparado.
- Ai, Jesus! O que tu tem,
Fabiano?
- Nada, acho que é só emoção
mesmo.
Conto publicado no Livro 164-Circular, organizado pela Claudia Chigres para a editora Texto e Território (tô chique, bem!)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Psicose
“...em síntese, Medusa simboliza a imagem
deformada, que petrifica pelo horror, em lugar de
esclarecer com equidade. ”
(Junito Brandão)
Em dias como este não dá para dormir. Dias em que sanidade é posta em cheque e a psicose parece tomar conta não só da minha mente, mas do meu corpo e da minha alma. Parece piti de madame, podem chamar como quiserem, mas é tão real como a certeza de que o Sol vai nascer daqui a umas horas. Serpente. Tenho sonhado com ela todas as noites, quando consigo dormir. Ainda sinto sua pele escamosa e gélida dançando, começando pelos pés, passeando então por recônditos do meu corpo de uma forma como nunca algo ou alguém explorou. E por final se aninha em meu colo, como um rebento recém concebido almeja pelo carinho maternal. Nessa hora, quando me entrego àquele gáudio momento, a serpente se transforma, levanta sua cabeça e mostra suas presas, revelando sua verdadeira intenção. Grito por socorro, sempre em vão. Aqui, nesta varanda, ainda não sei se estou completamente a salvo.
ÉTUDOCOISADASUACABEÇASUALOUCA. Enquanto estou aqui, fitando o horizonte escuro iluminado apenas por pequenos pontinhos de luz aqui e acolá, minha mente parece funcionar a todo vapor. Não há pensamento que não passe por minha cabeça. Os piores do mundo.. SEJOGA. A luta psíquica travada com esse órgão tão confuso e inexplorado se intensifica quando as pequenas luzes enfim começam a se apagar. Uma por uma. Uma por uma. Uma. Me apego no pensamento que aquela última luz está ali por mim. PORVOCE?. Um lampejo de esperança acende em meu corpo, passando por minhas veias e bombeando por toda minha estrutura. ÉSÓAPORRADEUMALUZINHA. Devem ter esquecido acesa. Ou devem estar se despedindo para ir dormir. Deve haver uma mãe, deve haver um pai. E um filho, claro. Um filho. Ou uma filha, quem sabe. Podem estar contando uma história para a criança. Ela pode ter tido pesadelos, quem sabe com uma serpente. E ali a senhora Mãe está acariciando a cabeça dela enquanto o senhor Pai está procurando o suposto monstro embaixo da cama. Quando tudo parece enfim calmo, mamãe e papai sentam na cama, e dizem “papai e mamãe te... ALUZAPAGOUCALAESSABOCA. Não devia ser nada. A cidade dorme, o silêncio, e a gritaria em minha mente, me ensurdecendo.. Quando me transformei nisso? Lembro-me dos dias sem fim, rodeada de amigos e exalando uma beleza pueril de deixar qualquer babaca de queixo caído. ESSEERATEUPROBLEMA. Qualquer BABACA.
Ele não era babaca. Só era casado. Arrastei anos e dois filhos nessa novela mexicana. ELENÃOTEAMAVA. Eu o amava mais do que a mim mesma. Eu achava que o amor dele era o máximo que eu poderia ter. VOCENAOMERECIANEMISSO. Eu merecia mais. Mas a gente se contenta com migalhas. Um dia a louca chegou na minha casa, com aquele vidrinho na mão. Já sabia de tudo. OBABACATINHACONTADOCLARO. Foi quando tudo ficou tenso e escuro. Acordei com o rosto queimando como brasa, em um lugar frio e branco. Partes dos meus seios estavam em carne viva e eu só via meu reflexo no rosto de quem me visitava. A dor na feição deles doía em minha espinha dorsal, e a certeza de que nada seria como antes era latente. AQUELAFILHADAPUTA. Eu mereci. Foi pagamento dos meus pecados. Desde então, se me olhei no espelho duas vezes foi muito. Na primeira era como olhar a própria alma do tinhoso. Não conseguia acreditar que tinha me
Ele não era babaca. Só era casado. Arrastei anos e dois filhos nessa novela mexicana. ELENÃOTEAMAVA. Eu o amava mais do que a mim mesma. Eu achava que o amor dele era o máximo que eu poderia ter. VOCENAOMERECIANEMISSO. Eu merecia mais. Mas a gente se contenta com migalhas. Um dia a louca chegou na minha casa, com aquele vidrinho na mão. Já sabia de tudo. OBABACATINHACONTADOCLARO. Foi quando tudo ficou tenso e escuro. Acordei com o rosto queimando como brasa, em um lugar frio e branco. Partes dos meus seios estavam em carne viva e eu só via meu reflexo no rosto de quem me visitava. A dor na feição deles doía em minha espinha dorsal, e a certeza de que nada seria como antes era latente. AQUELAFILHADAPUTA. Eu mereci. Foi pagamento dos meus pecados. Desde então, se me olhei no espelho duas vezes foi muito. Na primeira era como olhar a própria alma do tinhoso. Não conseguia acreditar que tinha me
transformado naquilo. Sim, porque agora eu não era mais aquela de outrora, a vívida, a bela, ADESTRUIDORADECASAMENTOS. Olhar-me no espelho significava encarar a finitude, a feiura do fugaz, o irreversível estado de fim. E ele, OBABACA, sumiu sem deixar vestígios. E eu, que nunca aprendi com minha mãe a ser mãe, tive que ser mãe e pai. VOCELARGOUSEUSFILHOSCOMSUAIRMÃSUAESCROTA. Na verdade, eu deixei meus filhos com minha irmã e me mudei para longe, a fim de refazer a vida. E cá agora estou. Trabalho em um estoque de mercearia FEIADEMAISPRATRABALHARNOCAIXA, sem amigos ou chegados. Um ou outro tenta fazer amizade, mas cada vez que o olhar de pena e terror deles encontra as cicatrizes em meu rosto, eu fujo. ELESAGRADECEMAFUGA.
O Sol começa a despontar no horizonte, sinal de que a vida continua. INFELIZMENTE. Acendo um cigarro e daqui, do alto da minha “torre”, espero que essa existência se consuma e meu tormento acabe de vez. De relance me olho refletida no vidro da porta. E petrifico.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Tanglomanglo
Quando Jasão conquistou o velocino de ouro e a nau
Argos
velejava
com Medéia rumo à Grécia, o sonho da princesa parecia
realidade. (...) Quem ainda se lembrava do monstro?
Contudo,
para o herói, o monstro jamais é um só. Por isso se
deixa
esquecer; todo monstro é um prelúdio ao monstro
sucessivo. E
mais fácil que a princesa seja esquecida. Os monstros
possuem
uma identidade difusa, que se encontra e se repete em
cada
fragmento do monstro, ao passo que cada mulher é um
perfil e, a
todo momento, um novo perfil pode encobrir os outros.
Assim, as
histórias entre os heróis e as princesas tendem a
terminar mal
(CALASSO, 1990, p. 225).
A
faca, o porco, velas e sangue. “Se arrepender, vai se arrepender”. Vela preta,
vela vermelha. “Ah, se vai”. Cuspida. Baforada. Risada. Risadas. Ele está
andando, como se não percebesse todo mal que o açoita furtivamente. “Alguma
coisa tá errada”. Seu corpo adormece. Moedas, cachaça. Cuspida. Baforada. Anda
como automático. Seu olho adormece. Tem lembrança da infância. Não aquelas que
costuma ter, mas lembranças que nem sabia que existiam brotam em sua mente como
enxurrada de uma represa partida. Gritos. Brigas. Um soco. Ele está ali,
olhando. Não faz nada. “Por que você não faz nada?”. Ele saiu de casa de novo.
“SEU MERDA!”. Aquele olhar o encontra. Ela o odeia. Ela te odeia. “Mas esse
menino parece tanto com o pai”. Cuspida. Baforada. A faca na garganta. O porco.
“Sai daqui, menino!” Sua cabeça adormece. Tudo fica escuro. Vela preta, vela
vermelha. A chama parece recordá-lo do caminho até aquela casa a tanto tempo
esquecida. Não queria entrar ali. Não queria estar ali de novo. Mas está.
Moedas, cachaça. Cuspida. Baforada. Uma faca. Ele ouve a risada dela. Ela
deveria ter cuidado dele. Ela deveria ter dado mais atenção. Não sabia ser
materna. Não sabia ser. Ele saiu de casa de novo. Acompanhado. Dessa vez parece
que não volta mais. As vozes, que começaram em um sussurro, estão cada vez mais
altas. Tão altas que ele não consegue nem ouvir as pessoas falando ao seu
redor. Elas parecem estar falando de você. Elas estão falando de mim. Elas não
fazem ideia do que você vai fazer. Elas não têm ideia do que eu vou fazer.
Abriu o portão enferrujado, sem perceber o rangido. Viu Santo Antônio no
azulejo perto do telhado. Parou. Cuspida. Baforada. Tremores. Cachaça. Cuspida.
Gargalhada. Seguiu seu caminho automaticamente. A porta de madeira, que parecia
tão pesada em outra época está entreaberta. Passa pela sala e chega à cozinha.
Na gaveta do armário lhe espera a faca de churrasco que tantas vezes viu sua
avó afiar. De relance olha para a varanda. Ele está lá, reclinado na rede. Vê
apenas parte do braço e seus pelos grossos protuberantes. A adrenalina toma conta
do seu corpo e, como uma dança cerimonial, ele titubeia, vacila, hesita,
oscila. Em questões de segundos, sua mão se projeta ao alto e com um golpe
forte e certeiro, atinge algo. Cachaça, cuspida. Baforada. Muitas gargalhadas. Um
choro. Choro de criança irrompe pela casa. Ela estava naquele colo. Ainda sobre
o efeito tórpido, passa a faca pela garganta dele também, espirrando em seu
rosto e corpo, criando rapidamente uma vasta piscina rúbida no chão. Os dois
corpos caem abrupta e bruscamente no chão. Gargalhada. Olha o que você fez! Em
outro lugar, o pequeno corpo suíno ainda está gritando enquanto aquela figura ali,
de pé, contempla seu massacre. O que foi que você fez? Lágrima. Gargalhada. O
que eu fiz? É quando as últimas gotas porcinas estão rolando que ele dá cabo de
vez daquela cena. Um último golpe. Bem no estômago. O joelho também machuca com
o peso da gravidade sobre seu corpo. Agora são três. Silêncio. Não há remorsos.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Tenuidade
Luana era linda. Apesar de toda sua história de vida e tudo o que a fez ter uma autoestima baixa, Luana era linda. Luana não era popular. Dotada de uma inteligencia sarcástica daquelas que a gente aprende pra tentar se destacar no mundo, mas que acaba mesmo é nos fazendo estar à parte dele. Luana tinha uma vida comum: trabalhava, estudava, sofria, se alegrava. Como você, como eu. Tentava viver em harmonia com tudo e todos. Tentava a vida e aceitava tudo o que ela lhe oferecia de bom grado. Uma pessoa comum, mas Luana era linda - só ela não percebia. Onde chegava tentava se entrosar. Tentava. Daquele jeito diferente dela. Mas o mundo é assim, não tem tempo de perceber e aceitar diferenças. E Luana era como todo mundo - pra ela também foi difícil se perceber e se aceitar.
Semanas se passaram até que sua falta fosse notada. Foi encontrada pelo porteiro de seu prédio que, desconfiado por não tê-la visto procurando suas correspondências (sua caixa de correio nunca esteve cheia, mas uma carta ali há dias o intrigou) foi bater em sua porta. Precisou usar a chave reserva. Ele encontrou o corpo já roxo pendendo no guarda-roupas, pendurado apenas por um cinto enrolado no pescoço. A barra da calça gasta denunciava as unhas de seu gato, deitado logo abaixo do decrépito cadáver.
Luana era linda. Não o suficiente. Era inteligente, mas não o bastante. Até era legal, mas apenas razoavelmente. Investigações até foram feitas, mas logo se decretou suicídio e caso encerado. Foi enterrada pelo que restara de sua família - uma tia e um primo. A carta que estava em sua correspondência foi enterrada junto. Luana era tão desinteressante ao mundo que nem mesmo sua tia teve curiosidade de a ler.
Hoje a vida segue. Luana até que era bonitinha, mas ninguém mais toca no assunto.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Passos
Pronto. É a hora da verdade. Se eu digo sim, vou estar presa a uma só
pessoa pro resto da minha vida. Cara, a mesma pessoa pro resto da vida! E se eu
disser não? Porra, já se passaram seis anos. SEIS anos. Tenho nem desculpa pra
dizer não. Tá, vou dizer sim, vamos nos abraçar, ele vai chorar (como sempre) e
tudo vai ficar bem. Mano, olha pra cara dele! Isso é bem mais que um pedido de
casamento, é um ato de desespero! Calma, relaxa. Pensa nas coisas boas. Pensa
em como ele adora tudo o que você fala. Em como ele te olha como se fosse a
pessoa mais inteligente do mundo. Meu Deus, o que será que ele tem na cabeça?
Eu? Eu pesquiso poemas no google pra recitar! Acho que nem tenho um livro
decente de algum poeta renomado. E ele acha que eu sou a pessoa mais poética
que ele conhece! Não, não. Vai dar certo sim. Será? Ele tem aquela coisa de
gesticular como um louco pra contar qualquer coisa. Nossa, como isso me irrita!
Se eu não odiasse tanto passar vergonha talvez eu estivesse nem aí pra isso,
mas ele precisa mesmo ser tão escandaloso? Mas olha a grossura desse anel...
Minhas amigas encalhadas ficariam com a maior inveja. Ah, sim... Se eu aceitar
a primeira foto pro instagram vai ser desse anel. Porque tanta dúvida? (eu
sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde) Tá, mas nunca é algo
para o qual se está realmente preparada. Ok. Vamos lá. Essa cena tá ficando
embaraçosa e já tá enchendo de curiosos pra olhar. Mas porra, pedir alguém em
casamento em plena praça de alimentação do shopping? É merecer ficar aí
esperando, só pra passar vergonha mesmo. Tá bom, tá bom... eu o amo.
Definitivamente o amo. Vamos logo terminar com isso.
- Ai, meu Deus! Claro que eu
aceito!!
[Trabalho apresentado à matéria Oficina de texto narrativo sobre a proposta de Fluxo de Consciência]
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Da ironia dos vícios.
Jorge só saía de casa com seu isqueiro no bolso. Estava sempre às ordens quando alguém precisava de um "foguinho" para o cigarro. Era como um amuleto da sorte, que o lembrava de uma época em que, como dizia, "curtia uma chupeta do diabo". E completava sempre: "mas Jesus me libertou a mais de 20 anos, amém!". Dia desses Jorge adoeceu e foi parar no hospital. E de lá não voltou mais. Causa do óbito: enfisema pulmonar.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
O Herói boiadeiro
Conhecido por
suas milhares de conquistas nos campos de batalha, nosso herói conquistou fama,
dinheiro, mulheres e até mesmo homens em toda história de sua vida. Era
conhecido como “Deus cabeludo”, por conta de suas madeixas, que se tornaram um
símbolo de beleza e poder. Crianças em toda sua era fugiam do aço afiado das
tesouras de suas criadas, para poderem - pelo menos em aparência - ser como seu
herói. Mas seu tempo não fora outrora, em uma época mitológica muito distante
não. Seu tempo foi logo ali, perto o suficiente para eu lembrar de tê-lo visto
em suas lutas constantes com bois na arena perto de um sítio em que eu vivia
com minha família. Sim, seu campo de batalha era a arena dos boiadeiros, onde
dava seu show todo final de semana. Seu sonho era ser reconhecido em todo
Brasil. Filho de Oxóssi e sabido do Catimbó, trazia em seu sangue o quente do
sertão, e o cheiro de carne queimada pelo sol das grandes caminhadas que fazia,
sempre tocando seu berrante para guiar o seu gado. Como quase todo herói
sertanejo, teve sua infância sofrida, marcada pela fome e pela morte. Seu pai,
uma galalau dado a jogos e mulheres, perdeu todo dinheiro da família e a vida
em uma arenga de bar. Sua mãe e irmã eram tudo que nosso herói tinha em vida e
era por elas que ele lutava. E como lutava! Quando entrava na arena, era como se
ele se transformasse no próprio Caboclo Boiadeiro, dançando com uma coreografia
intricada de passos rápidos e ágeis, que o fazia parecer um dançarino mímico,
lidando bravamente com os bois. E assim sua fama só crescia em todo sertão.
Mas como dizia
minha vó, “a fruta não cai longe da árvore”, e com o nosso herói boiadeiro não
deu outra: nasceu com gosto pra bebida forte e um coração fraco para os
assuntos do amor. Se desmantelou por uma cabrocha que já tinha dono e foi nela
que seu coração se perdeu. Mas por conta do amor não correspondido da Pequena,
o herói danou-se a beber e quase toda noite era encontrado pela estrada,
caminho de sua fazenda, com o andar sonolento e olhar pesado – coisa de quem
ama do jeito errado. E em uma dessas noites de tristeza alcoólica, o herói cambaleante
foi até a fazenda da Tal que lhe roubara a sanidade, tomar satisfação pela
ilusão que ele mesmo criara. Confuso e atordoado, se viu entrando em um pasto,
onde deu de cara com o Touro chamado Pesadelo, conhecido por sua impiedade e
força. Nosso herói então, se vê frente a frente com seu destino. Bêbado e à
beira da morte, ele dá um grito de desespero, chamando por seu senhor Caboclo
Boiadeiro, que lhe acudisse. Sob o som de um trovão, a entidade apareceu montada
em um cavalo, vestido de cangaceiro e sorrindo, uma risada escarnecedora. O boi
cai duro no chão e nosso herói, agonizante, olha para o espírito e não sabendo
se pela bebida ou pela situação quase morte, vê o rosto de seu pai, sorrindo e
zombado dele.
Não se teve
mais notícias do Herói boiadeiro depois do ocorrido no sítio de Pequena, nem
sobre o paradeiro de sua irmã e mãe. Há quem diga que foi pra cidade grande,
tentar a vida junto com elas. Mas o grande fuxico foi que o Herói boiadeiro
depois que matou o Touro Pesadelo à unha, fora chamado pelo próprio Oxóssi pra
combater perigos do outro lado, tornando-se assim, padroeiro dos que combatem
touro com as próprias mãos.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Minuto
Pedro acordou com uma leve
sensação de vazio. Era como se todo peso de sua vida tivesse sido tirado de
seus ombros. Levantou-se, respirou fundo, mas sem sentir muito bem o ar que
inspirava. Andou até a janela e, apesar do Sol estar a pino, não sentiu o calor
queimar sua pele. Olhou para o relógio,
quase caindo de cima do criado mudo: 12: 52.
O fato de estar atrasado para o trabalho não o incomodou desta vez.
Sempre fora um empregado dedicado, até mais do que deveria. Hoje não sentia
necessidade de ser. Voltando a olhar pela janela, percebeu algumas pessoas
vestidas de preto, entrando e saindo de sua casa, algumas com um semblante
calmo, outras com olhar sombrio e perdido. Apesar de sentir algo familiar nelas,
não as reconhecia. Desceu as escadas quase como se estivesse flutuando. Passou
por um relógio de parede redondo: 12: 52. Um burburinho no ar o deixa curioso. Quem são essas pessoas, e o que fazem na
minha casa? Toby, seu cachorro, o olha e começa a uivar. Pedro se abaixa,
chamando-o para um afago, mas como resposta recebe uivos mais frenéticos.
Percebe então, que não se lembra de como chegara a sua casa. Alguns flashes do
dia anterior passam pela sua cabeça. Lembra-se de ter acordado seis em ponto,
como todos os dias, se arrumado e ido ao trabalho. No caminho havia parado para
tomar o café na birosca onde há meses paquerava uma garçonete. Ah, Luiza. Santa
Luiza que já tinha seu pedido decorado: pão na chapa e um pingado. Melhor forma
de começar o dia: café com Luiza. Lembrou-se também que Paulo, seu assistente,
o chamara pra almoçar fora, pois tinha algo importante para contar a Pedro. Depois
de uma pesada conversa sobre o crescimento profissional de seu assistente e a
chance de perdê-lo para a contabilidade de outra empresa, lembrou-se de sair do
restaurante e atravessar a rua sem olhar pros lados. O relógio em seu pulso –
presente de sua mãe – se espatifa pelo chão. 12: 52. Acorda daquelas lembranças
e, atordoado, começa a procurar naquelas pessoas alguém conhecido que pudesse
lhe dizer o que acontecera a ele. Enquanto caminha, procurando um rosto amigo,
nem percebe que não estava mais passando entre as pessoas, mas por elas. Seu
susto é enorme quando para e se vê parcialmente dentro de um homem, que se
parecia muito com ele, só que mais velho. Sente um grito brotar em sua
garganta, mas não há som. Olha para uma senhora que segura com carinho um
relógio de pulso quebrado em sua mão. Aproxima-se e fica em paz. Sentindo uma
luz penetrar todas as partes do seu corpo, o conduzindo para cima, olha mais
uma vez para aquele objeto dourado. O ponteiro dos segundos se mexe
preguiçosamente: 12: 53.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Ausência
21:00
– Saí do transe ouvindo uma sirene que ia ficando cada vez mais alta, como se
quisesse literalmente entrar em meu cérebro. Atônito e sentindo um forte cheiro
de sangue, percebo meu moleton totalmente banhado naquela seiva rubra. Um corpo
jazia perto da pia da cozinha. Quando o policial esfregou meu rosto no chão
frio e sujo, me algemando, pude enxergar o brinco que ainda pendia no que
sobrara daquela decrépita orelha.
20:00 - Desço
pelas escadas. Lábios doídos de tanto mordê-los. Uma loucura extrema fala ao
meu ouvido com sussurros quase inexprimíveis, que se confundem em minha mente.
Passo pela bancada da cozinha ainda ouvindo o som desafinado da voz que cantarola
uma antiga música: “Eu perguntava: Do You Wanna Dance?”. Quando pego a faca de
cima da bancada, meu corpo responde àquela pergunta e se entrega a uma funesta
dança, coordenadamente: Costas. Braço. Pescoço. Orelha... Um corpo cai,
sucumbindo aquele espetáculo fúnebre. Eu mesmo caio de joelhos, contemplando a
poça de sangue crescendo em minha direção. Tudo fica escuro.
15:00 – Uma sirene me acorda, avisando que o intervalo começou. Hoje não
estou para conversa, apesar da insistência de Lea em conversar sobre nosso
relacionamento. Jogo meia dúzia de palavras ao vento e a despisto. Precisava me
concentrar, reunir força e coragem para o que me esperava ainda hoje. Cada
minuto parece uma eternidade.
Por volta de 12:00 – Chego à copa e o almoço está servido. Bem servido.
Não tenho do que reclamar, afinal, materialmente nada me faltava. Mas sentado
ali, sozinho, penso em como as cadeiras parecem tão pequenas agora. Quando
criança, o vazio daqueles lugares era bem maior. A gente cresce, as coisas
diminuem. Materialmente.
07:30 – Indo em direção ao banheiro, me pego
pensando no tamanho das coisas. Tive que crescer rápido, já que nunca tive com
quem contar de verdade. Pequenas coisas, como escovar os dentes, amarrar
cadarços ou um primeiro barbear parecem grandes feitos quando se tem alguém com
quem compartilhar. Para mim tudo fora sempre tão corriqueiro, tão ínfimo. Nunca
pude expor minhas pequenas conquistas. Na minha vida presença e ausência sempre
andaram juntas, aprendi a conviver com isso, mas hoje escolhi apenas uma. E a
gente sempre opta pelo maior.
07:00
– O despertador toca sonolento. Como se minha alma entrasse de súbito em meu
corpo, acordo em um violento impulso: Hoje vou matar minha mãe.
Texto criado na Oficina de Produção de Texto Narrativo, sob proposta de escrita como diário ou descrição.
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