Pra ser bem sincera, nem lembro mais seu nome. Até seu rosto e feições hoje me são tão estranhos quanto eram nos segundos que antecederam nosso encontro. Hoje, revirando minhas gavetas mentais, me deparei com seu cheiro, que a essa altura já nem sei mais se era mesmo seu ou da areia em que nos sentamos a observar o mar. Te encontrar aqui dentro me causou um feliz vazio. Uma certeza de que nos conhecemos apenas para isso: para sentirmos uma ponta mágica do que são feitos os contos de fadas, mas com a sensação agridoce que tem os dramas em que o mocinho morre no final. Era pra ser aquele único nascer do Sol em seus braços. Era pra ser a cumplicidade instantânea que brotou entre nós. As risadas e as canções que cantamos um para o outro. Eram pra ser. O sentimento. O cheiro. O Sol. Hoje nem lembro mais o seu nome. Fomos um ponto de esperança no vazio iminente chamado esquecimento.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
sexta-feira, 19 de maio de 2017
271.
Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...
A repressão do amor ilumina os fenômenos dele com muito mais clareza que a mesma experiência. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa mas confunde. Possuir é ser possuído, e portanto perder-se. Só a ideia atinge, sem se estragar, o conhecimento da verdade.
Fernando Pessoa in Livro do Desassossego
A repressão do amor ilumina os fenômenos dele com muito mais clareza que a mesma experiência. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa mas confunde. Possuir é ser possuído, e portanto perder-se. Só a ideia atinge, sem se estragar, o conhecimento da verdade.
Fernando Pessoa in Livro do Desassossego
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Escrever/ler nem sempre é compreender.
Aprendi com Marguerite Duras que a escrita é uma coisa
estranha. É a dor dos que vieram antes de nós, é a dor humana, essa que
conhecemos de ouvir falar nas histórias e na História, essa mesma que
carregamos quase como herança genética. É a voz do animal que reconhecemos na
noite, que se confunde com os nossos próprios uivos. Ainda sobre animais,
Deleuze nos mostra a ideia de território e mais ainda a necessidade de se
ultrapassar as barreiras dessa área. É importante criar uma zona de conforto,
afinal, isso acontece naturalmente entre nós escritores, mas a mágica acontece exatamente
quando nos dispomos a ir além, a traspassar esse território. “E o território só
vale em relação a um movimento através do qual se sai dele” diz Deleuze em Abecedário.
Isso já nos mostra uma característica do eixo pensamento-selvagem. Não é só
escrever sobre animalidades, mas pensar e criar como os animais. É sentir com o
corpo, com os sentidos. É deixar que o nosso instinto tome conta, é deixar esse
ser animal transbordar na página em branco e sujá-la com seus fluidos
animalescos.
E compreender também é arbitrário. Falo daquela compreensão que
sempre tentamos ter quando lemos ou escrevemos algo, aquela de que tudo precisa
ter um sentido expresso seja implícita ou explicitamente. Escrever/ler nem
sempre é compreender. Muitas vezes a grande potência de uma obra está
justamente na incompreensão dela. É como o ato de falar a língua dos anjos para
alguns cristãos. Eles entendem que só conseguem falá-la quando desligam o
pensamento e deixam que o espírito santo tome conta do centro da fala do
indivíduo e assim, fale através deles. Não compreendem que estão falando, mas sentem
a força daquelas palavras estranhas em seus poros, em suas almas, na pontas dos
seus dedos. É como Vico expressa ainda em Ciência Nova: “Porque assim como metafisica
raciocinada ensina ‘homo intelligendo fit omnia’*, assim esta metafísica demonstra
que ‘homo NON intelligendo fit omnia’; e talvez esta seja mais verdadeira do que
aquela, pois o homem, ao entender, abre sua mente e compreende tais coisas, mas ao
não entender ele de si faz essas coisas e nelas se transforma. ”
Incorporar o animal é incorporar o que nos é estranho dentro
de nós.
Pensamos no outro como algo alheio a nossas vidas, mas o
outro é tão intrinsecamente eu. É através de uma resolução antropofágica que
enriquecemos não somente a escrita, mas a nós mesmos. O choque com outra
cultura ou outras formas de pensar e agir faz com que isso se torne
automaticamente parte de mim, faz com que algo mude dentro de nós e o que me
afeta se torna meu. Segundo Osvald de Andrade: “Só me interessa o que não é
meu”. E é assim que crescemos como escritores, como leitores e como seres humanos:
absorvendo o estranho, criando ligações animalescas com nosso interior e com o
interior alheio, compreendendo e não compreendendo essa força universal que une
todos os seres, nos tornando mais animais e humanizando o que é fera.
* "Um homem de entendimento é tudo"
* "Um homem de entendimento é tudo"
domingo, 4 de dezembro de 2016
Não
quero muito, apenas tudo. Tudo que seja etéreo, todo espiritual e incorpóreo
que possa me oferecer. Não quero mãos dadas, quero almas dançantes em meio a um
infinito vazio de si mesmo e de nós. Me importa muito mais o querer do que o
ser, me importo com o desejo, a veemência, o assombro. Não, meu amor, não quero
sua carne. Que ela seja dada aos animais, que creem apenas como Tomé e amam com
o toque pesado dos sentidos físicos! Deixe-os com a frívola sensação de estarem vivos, com a esperança de que o toque suprima seus vazios materiais. A
mim, meu amado, não importa a fugaz sensação do abraço ou o breve gozo de um
beijo. Não, mas deixa-me com os lábios que argumentam a metafísica das coisas,
com as mãos que criaram arte e poesia, com os olhos que podem me despir em
segundos e o prazer que apenas o transcendente pode oferecer. Dê a ela o que a existência
precisa para fazer-se tanger, mas a mim, meu bem, dá-me tudo e dá-me o nada.
terça-feira, 19 de julho de 2016
Do sabão ao pó
- Puta que pariu! Puta que PARIU!
– O barulho do carro ficou mais alto e explodiu em um estrondo.
- Mai que diabéisso? Olha essa
boca, Fabiano! – Dona Zefa, agarrada às sacolas de compras olhava para o rapaz
com os olhos arregalados.
- Ah, mãe, mas que merda! Saporra
vai inventar de quebrar justo agora!
Na avenida, carros e carros
passavam deixando seus ZUNS e rajadas de ventos poluídos no ar.
- Mai meu filho, precisa falar
nome desse jeito? Que coisa mai feia!
- A senhora não ta entendendo a
gravidade da coisa.
- Ué, o carro parou. Dê seu jeito
e ligue de novo.
“Ah, claro. Fácil assim.” Há
semanas que o motor estava capengando e sabia que deveria ter passado no seu
Severo para verificar. “Aquele velho careiro do caralho”. A economia ia era custar caro.
- Logo hoje que eu tô na escala
pra dobrar lá na firma!
- E essa joça deu o prego mêmo?
- É, parece que sim.
Ao abrir o capô, uma fumaça densa
e quente saiu de dentro, queimando de leve o rosto de Fabiano.
- Ai cacete! Filho da puta!
- Que danação é essa, Fabiano? -
Dona Zefa só esticava o pequeno pescoço pra tentar ver, mas não desgrudava das sacolas,
como se alguém a qualquer momento fosse roubar seus preciosos pertences.
- Nada, mãe! Fica aí que eu vou
resolver isso!
- Ah, claro... Vai ver se esse
maluvido vai mêmo resolver essa paia...
- Que foi?
- Nada, meu filho. Continue sua
procissão aí!
- Velha irritante...
- Que foi, Fabiano? Falou comigo?
- O buraco no motor ta gigante!
Desde que Fabiano largou sua ex e
voltou pra casa de sua mãe que as coisas andavam assim, estranhas entre eles.
Sua mãe parecia estar escondendo algo, e sempre pedindo para leva-la à lugares
estranhos, e quando levava, pedia para esperar na esquina ou adjacências e depois
voltava agarrada às sacolas de suas encomendas. Trocavam farpas, como em toda
relação normal de mãe-filho, mas sentia que a hostilidade da senhora com
relação ao seu novo hóspede estava mais forte que o normal. Não gostava de se
meter na vida da mãe, mas achava estranho demais o movimento que acontecia na
casa dela. Sempre tinha alguma figura chamando na porta e ela sempre saia com
umas pequenas quentinhas enroladas em um plástico pra entregar. Nunca pensei
que comida daria dinheiro assim, mas dava pra perceber que dona Zefa estava
prosperando em seus negócios. Arrumou a casa toda, trocou piso, fez parede e
até um terraço onde acontecia mensalmente churrasco para os amigos. Sempre que
questionava a senhora sobre a procedência do dinheiro, a velha ficava invasiva
e sempre desconversava.
Colocou o triangulo para
sinalizar e ligou para o reboque. Chegariam em 40 minutos.
- Agora é só esperar.
- E vamo esperar aqui nessa
quentura? Capaz de vir um safado qualquer e levar minhas coisa.
- Mãe, a gente tá em uma via
expressa. Só tem carro passando, acha mesmo que alguém vai parar só pra roubar
a gente? E se roubar também, vai levar o quê? Tenho 5 reais na carteira e o
carro não tem nem radio pra salvar.
-
Ai, Fabiano... Minhas encumenda!
- E o que que tem demais aí,
afinal? – Falou já esticando o braço para abrir a sacola.
- Ta ca peste, mininu? Arreda!
- Mãe, o que é isso? – Na
tentativa de ver o que era, um pedaço denso de alguma coisa, em formato
quadrado e enrolado em uma fita marrom caiu no chão do carro.
- Arre, Fabiano! Me deixe!
- Isso é droga?
- Que droga o quê, abestado! É
sabão de louça!
- Sabão de louça, mãe? Pra cima
de mim?
- Ôxe! Mai é sim! Eu compro de
Inês e de Rita toda semana pra revender la no bairro. Elas vendem faz tempo
também. O povo parece que gosta da coisa mêmo. – a velha parecia sincera.
- A senhora realmente acha que
isso é sabão de louça? Já abriu um pra experimentar?
- Assim, abrir eu não abri não.
Mai seu Rube da venda diz que não porfissional usar suas próprias mercadorias.
Mas ele diz que é bom, compra quase que de 2 em 2 dia...
- Não, mãe! Você ta traficando
droga sem nem saber?
- Que droga o quê, mininu! Pare
de frescagi!
- Então me deixa abrir um pra
ver!
- Mai num...
Sem esperar a resposta, o rapaz
abriu um pacote marrom daqueles e a fumaça de um pó branco se espalhou pelo
carro, os fazendo tossir bastante.
- Mãe, você ta louca?
A velha começou a chorar. Há
tempos Fabiano não a via frágil daquele jeito. A mulher carrancuda cangaceira
se desfez junto com a fumaça branca que estava ali.
- Nem Santo Antonho com gancho me
salva, meu filho! To fazendo essa desgraceira com a vida dos ôto e tava
ganhando tanto diêro que nem quis saber a procidência desse diacho! Eu mereço é
cadeia mêmo, to estragano as famía!
Fabiano sentiu um dó profundo
pela velha.
- Mas você não sabia o que estava
fazendo...
- Mai devia saber! Vou junir essa
coisa daqui da ponte é agora!
- Calma, mãe! Deixa eu olhar isso
de novo. – Enfiou o dedo no malote e cheirou. Depois deu uma lambida de leve e
riu para ela.
- Ta me frescando, Fabiano?
- Não, só to achando engraçado
porque isso aqui ta parecendo Sapolium. É sabão de louça mesmo.
- Crendeuspai, sério?
- Uhum.
- Graças a nossa senhora! Num vou
mai pro inferno!
- Pois é. – o rapaz continuou
lambendo o pó. – Mas faz só um favor pra mim? Liga pra ambulância que meu
coração ta disparado.
- Ai, Jesus! O que tu tem,
Fabiano?
- Nada, acho que é só emoção
mesmo.
Conto publicado no Livro 164-Circular, organizado pela Claudia Chigres para a editora Texto e Território (tô chique, bem!)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Psicose
“...em síntese, Medusa simboliza a imagem
deformada, que petrifica pelo horror, em lugar de
esclarecer com equidade. ”
(Junito Brandão)
Em dias como este não dá para dormir. Dias em que sanidade é posta em cheque e a psicose parece tomar conta não só da minha mente, mas do meu corpo e da minha alma. Parece piti de madame, podem chamar como quiserem, mas é tão real como a certeza de que o Sol vai nascer daqui a umas horas. Serpente. Tenho sonhado com ela todas as noites, quando consigo dormir. Ainda sinto sua pele escamosa e gélida dançando, começando pelos pés, passeando então por recônditos do meu corpo de uma forma como nunca algo ou alguém explorou. E por final se aninha em meu colo, como um rebento recém concebido almeja pelo carinho maternal. Nessa hora, quando me entrego àquele gáudio momento, a serpente se transforma, levanta sua cabeça e mostra suas presas, revelando sua verdadeira intenção. Grito por socorro, sempre em vão. Aqui, nesta varanda, ainda não sei se estou completamente a salvo.
ÉTUDOCOISADASUACABEÇASUALOUCA. Enquanto estou aqui, fitando o horizonte escuro iluminado apenas por pequenos pontinhos de luz aqui e acolá, minha mente parece funcionar a todo vapor. Não há pensamento que não passe por minha cabeça. Os piores do mundo.. SEJOGA. A luta psíquica travada com esse órgão tão confuso e inexplorado se intensifica quando as pequenas luzes enfim começam a se apagar. Uma por uma. Uma por uma. Uma. Me apego no pensamento que aquela última luz está ali por mim. PORVOCE?. Um lampejo de esperança acende em meu corpo, passando por minhas veias e bombeando por toda minha estrutura. ÉSÓAPORRADEUMALUZINHA. Devem ter esquecido acesa. Ou devem estar se despedindo para ir dormir. Deve haver uma mãe, deve haver um pai. E um filho, claro. Um filho. Ou uma filha, quem sabe. Podem estar contando uma história para a criança. Ela pode ter tido pesadelos, quem sabe com uma serpente. E ali a senhora Mãe está acariciando a cabeça dela enquanto o senhor Pai está procurando o suposto monstro embaixo da cama. Quando tudo parece enfim calmo, mamãe e papai sentam na cama, e dizem “papai e mamãe te... ALUZAPAGOUCALAESSABOCA. Não devia ser nada. A cidade dorme, o silêncio, e a gritaria em minha mente, me ensurdecendo.. Quando me transformei nisso? Lembro-me dos dias sem fim, rodeada de amigos e exalando uma beleza pueril de deixar qualquer babaca de queixo caído. ESSEERATEUPROBLEMA. Qualquer BABACA.
Ele não era babaca. Só era casado. Arrastei anos e dois filhos nessa novela mexicana. ELENÃOTEAMAVA. Eu o amava mais do que a mim mesma. Eu achava que o amor dele era o máximo que eu poderia ter. VOCENAOMERECIANEMISSO. Eu merecia mais. Mas a gente se contenta com migalhas. Um dia a louca chegou na minha casa, com aquele vidrinho na mão. Já sabia de tudo. OBABACATINHACONTADOCLARO. Foi quando tudo ficou tenso e escuro. Acordei com o rosto queimando como brasa, em um lugar frio e branco. Partes dos meus seios estavam em carne viva e eu só via meu reflexo no rosto de quem me visitava. A dor na feição deles doía em minha espinha dorsal, e a certeza de que nada seria como antes era latente. AQUELAFILHADAPUTA. Eu mereci. Foi pagamento dos meus pecados. Desde então, se me olhei no espelho duas vezes foi muito. Na primeira era como olhar a própria alma do tinhoso. Não conseguia acreditar que tinha me
Ele não era babaca. Só era casado. Arrastei anos e dois filhos nessa novela mexicana. ELENÃOTEAMAVA. Eu o amava mais do que a mim mesma. Eu achava que o amor dele era o máximo que eu poderia ter. VOCENAOMERECIANEMISSO. Eu merecia mais. Mas a gente se contenta com migalhas. Um dia a louca chegou na minha casa, com aquele vidrinho na mão. Já sabia de tudo. OBABACATINHACONTADOCLARO. Foi quando tudo ficou tenso e escuro. Acordei com o rosto queimando como brasa, em um lugar frio e branco. Partes dos meus seios estavam em carne viva e eu só via meu reflexo no rosto de quem me visitava. A dor na feição deles doía em minha espinha dorsal, e a certeza de que nada seria como antes era latente. AQUELAFILHADAPUTA. Eu mereci. Foi pagamento dos meus pecados. Desde então, se me olhei no espelho duas vezes foi muito. Na primeira era como olhar a própria alma do tinhoso. Não conseguia acreditar que tinha me
transformado naquilo. Sim, porque agora eu não era mais aquela de outrora, a vívida, a bela, ADESTRUIDORADECASAMENTOS. Olhar-me no espelho significava encarar a finitude, a feiura do fugaz, o irreversível estado de fim. E ele, OBABACA, sumiu sem deixar vestígios. E eu, que nunca aprendi com minha mãe a ser mãe, tive que ser mãe e pai. VOCELARGOUSEUSFILHOSCOMSUAIRMÃSUAESCROTA. Na verdade, eu deixei meus filhos com minha irmã e me mudei para longe, a fim de refazer a vida. E cá agora estou. Trabalho em um estoque de mercearia FEIADEMAISPRATRABALHARNOCAIXA, sem amigos ou chegados. Um ou outro tenta fazer amizade, mas cada vez que o olhar de pena e terror deles encontra as cicatrizes em meu rosto, eu fujo. ELESAGRADECEMAFUGA.
O Sol começa a despontar no horizonte, sinal de que a vida continua. INFELIZMENTE. Acendo um cigarro e daqui, do alto da minha “torre”, espero que essa existência se consuma e meu tormento acabe de vez. De relance me olho refletida no vidro da porta. E petrifico.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Tanglomanglo
Quando Jasão conquistou o velocino de ouro e a nau
Argos
velejava
com Medéia rumo à Grécia, o sonho da princesa parecia
realidade. (...) Quem ainda se lembrava do monstro?
Contudo,
para o herói, o monstro jamais é um só. Por isso se
deixa
esquecer; todo monstro é um prelúdio ao monstro
sucessivo. E
mais fácil que a princesa seja esquecida. Os monstros
possuem
uma identidade difusa, que se encontra e se repete em
cada
fragmento do monstro, ao passo que cada mulher é um
perfil e, a
todo momento, um novo perfil pode encobrir os outros.
Assim, as
histórias entre os heróis e as princesas tendem a
terminar mal
(CALASSO, 1990, p. 225).
A
faca, o porco, velas e sangue. “Se arrepender, vai se arrepender”. Vela preta,
vela vermelha. “Ah, se vai”. Cuspida. Baforada. Risada. Risadas. Ele está
andando, como se não percebesse todo mal que o açoita furtivamente. “Alguma
coisa tá errada”. Seu corpo adormece. Moedas, cachaça. Cuspida. Baforada. Anda
como automático. Seu olho adormece. Tem lembrança da infância. Não aquelas que
costuma ter, mas lembranças que nem sabia que existiam brotam em sua mente como
enxurrada de uma represa partida. Gritos. Brigas. Um soco. Ele está ali,
olhando. Não faz nada. “Por que você não faz nada?”. Ele saiu de casa de novo.
“SEU MERDA!”. Aquele olhar o encontra. Ela o odeia. Ela te odeia. “Mas esse
menino parece tanto com o pai”. Cuspida. Baforada. A faca na garganta. O porco.
“Sai daqui, menino!” Sua cabeça adormece. Tudo fica escuro. Vela preta, vela
vermelha. A chama parece recordá-lo do caminho até aquela casa a tanto tempo
esquecida. Não queria entrar ali. Não queria estar ali de novo. Mas está.
Moedas, cachaça. Cuspida. Baforada. Uma faca. Ele ouve a risada dela. Ela
deveria ter cuidado dele. Ela deveria ter dado mais atenção. Não sabia ser
materna. Não sabia ser. Ele saiu de casa de novo. Acompanhado. Dessa vez parece
que não volta mais. As vozes, que começaram em um sussurro, estão cada vez mais
altas. Tão altas que ele não consegue nem ouvir as pessoas falando ao seu
redor. Elas parecem estar falando de você. Elas estão falando de mim. Elas não
fazem ideia do que você vai fazer. Elas não têm ideia do que eu vou fazer.
Abriu o portão enferrujado, sem perceber o rangido. Viu Santo Antônio no
azulejo perto do telhado. Parou. Cuspida. Baforada. Tremores. Cachaça. Cuspida.
Gargalhada. Seguiu seu caminho automaticamente. A porta de madeira, que parecia
tão pesada em outra época está entreaberta. Passa pela sala e chega à cozinha.
Na gaveta do armário lhe espera a faca de churrasco que tantas vezes viu sua
avó afiar. De relance olha para a varanda. Ele está lá, reclinado na rede. Vê
apenas parte do braço e seus pelos grossos protuberantes. A adrenalina toma conta
do seu corpo e, como uma dança cerimonial, ele titubeia, vacila, hesita,
oscila. Em questões de segundos, sua mão se projeta ao alto e com um golpe
forte e certeiro, atinge algo. Cachaça, cuspida. Baforada. Muitas gargalhadas. Um
choro. Choro de criança irrompe pela casa. Ela estava naquele colo. Ainda sobre
o efeito tórpido, passa a faca pela garganta dele também, espirrando em seu
rosto e corpo, criando rapidamente uma vasta piscina rúbida no chão. Os dois
corpos caem abrupta e bruscamente no chão. Gargalhada. Olha o que você fez! Em
outro lugar, o pequeno corpo suíno ainda está gritando enquanto aquela figura ali,
de pé, contempla seu massacre. O que foi que você fez? Lágrima. Gargalhada. O
que eu fiz? É quando as últimas gotas porcinas estão rolando que ele dá cabo de
vez daquela cena. Um último golpe. Bem no estômago. O joelho também machuca com
o peso da gravidade sobre seu corpo. Agora são três. Silêncio. Não há remorsos.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Tenuidade
Luana era linda. Apesar de toda sua história de vida e tudo o que a fez ter uma autoestima baixa, Luana era linda. Luana não era popular. Dotada de uma inteligencia sarcástica daquelas que a gente aprende pra tentar se destacar no mundo, mas que acaba mesmo é nos fazendo estar à parte dele. Luana tinha uma vida comum: trabalhava, estudava, sofria, se alegrava. Como você, como eu. Tentava viver em harmonia com tudo e todos. Tentava a vida e aceitava tudo o que ela lhe oferecia de bom grado. Uma pessoa comum, mas Luana era linda - só ela não percebia. Onde chegava tentava se entrosar. Tentava. Daquele jeito diferente dela. Mas o mundo é assim, não tem tempo de perceber e aceitar diferenças. E Luana era como todo mundo - pra ela também foi difícil se perceber e se aceitar.
Semanas se passaram até que sua falta fosse notada. Foi encontrada pelo porteiro de seu prédio que, desconfiado por não tê-la visto procurando suas correspondências (sua caixa de correio nunca esteve cheia, mas uma carta ali há dias o intrigou) foi bater em sua porta. Precisou usar a chave reserva. Ele encontrou o corpo já roxo pendendo no guarda-roupas, pendurado apenas por um cinto enrolado no pescoço. A barra da calça gasta denunciava as unhas de seu gato, deitado logo abaixo do decrépito cadáver.
Luana era linda. Não o suficiente. Era inteligente, mas não o bastante. Até era legal, mas apenas razoavelmente. Investigações até foram feitas, mas logo se decretou suicídio e caso encerado. Foi enterrada pelo que restara de sua família - uma tia e um primo. A carta que estava em sua correspondência foi enterrada junto. Luana era tão desinteressante ao mundo que nem mesmo sua tia teve curiosidade de a ler.
Hoje a vida segue. Luana até que era bonitinha, mas ninguém mais toca no assunto.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Passos
Pronto. É a hora da verdade. Se eu digo sim, vou estar presa a uma só
pessoa pro resto da minha vida. Cara, a mesma pessoa pro resto da vida! E se eu
disser não? Porra, já se passaram seis anos. SEIS anos. Tenho nem desculpa pra
dizer não. Tá, vou dizer sim, vamos nos abraçar, ele vai chorar (como sempre) e
tudo vai ficar bem. Mano, olha pra cara dele! Isso é bem mais que um pedido de
casamento, é um ato de desespero! Calma, relaxa. Pensa nas coisas boas. Pensa
em como ele adora tudo o que você fala. Em como ele te olha como se fosse a
pessoa mais inteligente do mundo. Meu Deus, o que será que ele tem na cabeça?
Eu? Eu pesquiso poemas no google pra recitar! Acho que nem tenho um livro
decente de algum poeta renomado. E ele acha que eu sou a pessoa mais poética
que ele conhece! Não, não. Vai dar certo sim. Será? Ele tem aquela coisa de
gesticular como um louco pra contar qualquer coisa. Nossa, como isso me irrita!
Se eu não odiasse tanto passar vergonha talvez eu estivesse nem aí pra isso,
mas ele precisa mesmo ser tão escandaloso? Mas olha a grossura desse anel...
Minhas amigas encalhadas ficariam com a maior inveja. Ah, sim... Se eu aceitar
a primeira foto pro instagram vai ser desse anel. Porque tanta dúvida? (eu
sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde) Tá, mas nunca é algo
para o qual se está realmente preparada. Ok. Vamos lá. Essa cena tá ficando
embaraçosa e já tá enchendo de curiosos pra olhar. Mas porra, pedir alguém em
casamento em plena praça de alimentação do shopping? É merecer ficar aí
esperando, só pra passar vergonha mesmo. Tá bom, tá bom... eu o amo.
Definitivamente o amo. Vamos logo terminar com isso.
- Ai, meu Deus! Claro que eu
aceito!!
[Trabalho apresentado à matéria Oficina de texto narrativo sobre a proposta de Fluxo de Consciência]
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Da ironia dos vícios.
Jorge só saía de casa com seu isqueiro no bolso. Estava sempre às ordens quando alguém precisava de um "foguinho" para o cigarro. Era como um amuleto da sorte, que o lembrava de uma época em que, como dizia, "curtia uma chupeta do diabo". E completava sempre: "mas Jesus me libertou a mais de 20 anos, amém!". Dia desses Jorge adoeceu e foi parar no hospital. E de lá não voltou mais. Causa do óbito: enfisema pulmonar.
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